sábado, fevereiro 04, 2006

Fernando Pessoa II

    Ah quanta melancolia!
    Quanta, quanta solidão!
    Aquela alma, que vazia,
    Que sinto inútil e fria
    Dentro do meu coração!

    Que angústia desesperada!
    Que mágoa que sabe a fim!
    Se a nau foi abandonada,
    E o cego caiu na estrada -
    Deixai-os, que é tudo assim.

    Sem sossego, sem sossego,
    Nenhum momento de meu
    Onde for que a alma emprego -
    Na estrada morreu o cego
    A nau desapareceu.

    Fernando Pessoa, 3-9-1924.